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  • Foto do escritorKelly Demo Christ

PUAN: Quando as contradições dançam tango

"Puan" mergulha nas contradições da vida: enquanto o professor de filosofia Marcelo enfrenta uma disputa intelectual na universidade, o filme aborda pertencimento, luto, concorrência acadêmica e a sociedade argentina.


 

Na primeira cena de "Puan" (María Alché, Benjamín Naishtat, 2023), somos instigados a refletir sobre as contradições, um tema que percorre todo o filme. Vemos um senhor de idade avançada correndo em um parque. A imagem de saúde exemplar de Eduardo é contradita por seu desmaio súbito. Mesmo socorrido por transeuntes, ele acaba falecendo no local.


Na cena seguinte, conhecemos o protagonista, o professor de filosofia Marcelo (Marcelo Subiotto). Na sala de aula da universidade, ele demonstra paixão ao discutir o pensamento de Rousseau e a desigualdade social. Sua apresentação é interrompida de forma autorizada pelos alunos do centro acadêmico, que abordam as más condições sociais a que estão submetidos e a necessidade do movimento estudantil se unir para melhorias.



Marcelo comparece a uma homenagem ao falecido, onde encontra Rafael. O antagonismo entre os dois personagens é um dos pontos fortes de "Puan", destacando-se pela construção afiada do personagem de Leonardo Sbaraglia. A comédia flui nos momentos seguintes, como o celular tocando sem parar, a calça suja de cocô sendo jogada pela janela e o colega que expressa saudade do caos da cidade. O canto de Marcelo é interrompido pelo esplendor do adversário tocando piano, que está ali tomando toda a popularidade. Essa sequência funciona como uma orquestra - ou melhor, como uma dança de tango.


Entendemos ao longo da trama que Marcelo via o falecido Eduardo como mentor, colega e amigo próximo, e vai sendo revelado o luto de sua perda. O filme propõe alegorias ao citar a morte de Sócrates, já que nunca chegamos a conhecer Eduardo, apenas tomamos conhecimento dele através de seus sucessores, assim como o filósofo grego antigo.


Marcelo busca fazer jus ao legado de Eduardo, inscrevendo-se para concorrer à cátedra do falecido colega. No entanto, Rafael também deseja ingressar na universidade, iniciando uma grande disputa intelectual. O campo acadêmico, assim como o mundo corporativo, é marcado pela concorrência, dando espaço para fofocas, arrogância, brigas de egos e puxa-saquismos. No filme, tudo isso vem à tona, criando um ótimo enredo.


Talvez mais interessante do que ver Marcelo disputando com esse “estrangeiro” metido, vindo de terras alemãs para concorrer por uma cátedra na universidade, "Puan" é capaz de intrigar porque fala de pertencimento àquele local. Marcelo revela que só se sente “alguém” quando está na universidade, mas é questionado até que ponto foi ele quem escolheu esse caminho. Em algum momento, é até levantada a questão de ele realmente querer a cátedra, ou se apenas passou a desejá-la porque Rafael apareceu.


Não por acaso, o filme se conecta ao cenário argentino, retratando o contexto sócio-político do país e sendo crítico em relação à academia. Enquanto os debates filosóficos abordam questões sociais e políticas com profundidade, os professores parecem viver alheios ao que ocorre fora da sala de aula.


Destaco também os momentos em que Marcelo dá aulas particulares de filosofia na casa de uma ricaça. A aluna idosa passa de interessada a sonolenta em poucos minutos, e o detalhe da empregada que não tem apreço pelo professor cria momentos maravilhosos. Embora possam parecer secundários à trama, essas cenas proporcionam um grande alívio cômico e revelam muito sobre o personagem.


Não é raro vermos Marcelo na sala de aula, verdadeiramente ensinando e citando Platão, Sócrates, Heidegger, Hobbes e Camus. Isso denota um roteiro sem medo de se aprofundar, convidando-nos a filosofar assim como o personagem instiga em sua trajetória. Isso me remete aos professores de filosofia que tive, e ainda tenho, mostrando como todos precisamos ser ensinados a pensar.


Minhas expectativas com o filme eram altas, e foram bem atendidas. Saí dessa dança impressionada, pelos personagens se mostrarem contraditórios e, nesse sentido, cativantes e realistas. Mais do que isso, é muito satisfatório ver o drama e a comédia se misturando na medida certa, o roteiro se possibilitando a ousadia de falar de filosofia, política e fazer rir em uma única sessão. Com certeza, "Puan" já entra na minha lista de filmes argentinos preferidos.





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