Obsessão: amor correspondido é um perigo
- Kelly Demo Christ

- 3 de jun.
- 3 min de leitura

O enredo tipo "cuidado com o que você deseja" já não é novidade no gênero de horror, como nos lembram clássicos como Cemitério Maldito (Mary Lambert, 1989) e O Mestre dos Desejos (Robert Kurtzman, 1997). Ainda assim, a premissa continua rendendo boas histórias: ao recebermos exatamente aquilo que queremos, as coisas podem sair do controle, o universo pode cobrar um preço alto e a moral da história costuma servir como alerta para nossas ambições mais profundas.
Em Obsessão (2026), longa de estreia de Curry Barker, essa fórmula é revisitada. Bear é apaixonado por sua melhor amiga, Nikki, e pretende se declarar. Tímido e desencorajado pelos amigos, ele não consegue revelar seus sentimentos, nem mesmo quando confrontado diretamente. Ao quebrar um galho de salgueiro mágico comprado em uma loja mística de credibilidade duvidosa, ele deseja que Nikki o ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo. O pedido é atendido e, como se espera desse tipo de narrativa, tudo sai do controle: o amor de Nikki rapidamente se transforma em obsessão.
O principal problema de Obsessão está justamente aí. Quase tudo se desenvolve de maneira excessivamente previsível. Da namorada que passa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos ao desfecho envolvendo a morte do protagonista — possibilidade, aliás, sugerida desde cedo pelos próprios vendedores do artefato mágico como forma de quebrar o feitiço —, o filme raramente surpreende.
Ainda assim, Obsessão consegue divertir. Barker cria momentos eficientes de tensão e brinca com a expectativa dos tradicionais jump scares, que nem sempre se concretizam. O humor também funciona em diversos momentos, beneficiado pela experiência prévia do diretor na produção de conteúdo cômico para o YouTube. Também é revigorante assistir a um filme sem conhecer trabalhos prévios dos atores, e notar que todos estão muito bem encaixados em suas participações.

A decisão de abreviar a construção de Nikki antes da maldição parece indicar que Bear, na verdade, não a conhecia tão bem quanto imaginava. Ele desconhece aspectos importantes de sua vida, como sua relação com o pai, e demora a perceber que a pessoa com quem passa a se relacionar não é exatamente sua amada. O contraponto é que a personalidade "real" de Nikki permanece pouco desenvolvida para o espectador, enfraquecendo o impacto de sua transformação após o feitiço.
Também chama atenção a forma como o suicídio do protagonista surge como alternativa antes que ele esgote todas as possibilidades para resolver a situação. Mais do que isso, Bear evita recorrer a determinadas estratégias por parecerem moralmente questionáveis, mesmo já tendo manipulado Nikki desde o início ao desejar que ela se apaixonasse por ele. A tentativa de preservar sua imagem como um "bom sujeito" acaba tornando o personagem menos interessante e menos verossímil. Do início ao fim, Bear permanece essencialmente íntegro, sem que o roteiro explore as contradições e impulsos possessivos que poderiam emergir de sua própria obsessão.
Por isso, há certa ironia na forma como o filme apresenta uma mulher disposta a tudo pelo homem que ama. Em um contexto em que casos de feminicídio continuam crescendo e a violência motivada por obsessão amorosa é uma realidade frequentemente associada a homens, a inversão proposta por Obsessão chama atenção. Longe de ser um problema, esse aspecto talvez seja justamente um dos elementos mais interessantes do longa, acrescentando uma camada de acidez que o diferencia de tantas produções genéricas do gênero.






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