A Acidez da Laranja

September 1, 2018

"É curioso como as cores do mundo real apenas parecem realmente reais quando você as vê em uma tela"

 — Alex, Laranja Mecânica, 1971

 

 

Uma das frases mais marcantes do filme Laranja Mecânica, dita pelo protagonista Alex DeLarge (Malcolm McDowell) durante o processo de lavagem cerebral ao qual é submetido. Alex vê cenas de violência, em uma delas, um grupo espanca um homem cujo rosto sangra abundantemente. A cor mais vibrante da imagem é o vermelho sangue.

 

O que desejamos aqui é analisar a maneira como Laranja Mecânica representa a violência, com ênfase na de caráter sexual, comparando a narrativa do romance literário de Anthony Burgess (1962) e o filme de Stanley Kubrick (1971).

 

Mais de 50 anos depois de seu lançamento literário, Laranja Mecânica é tido como uma obra polêmica que trás em seu entorno diversas interpretações, que vão desde a proposta de justificar a violência, quanto de criticá-la de maneira assídua.

 

A sociedade é permeada pelas mais diversas relações de violência. Como descreve Sigmund Freud[i], a agressividade é inata ao ser humano, porém é pelo controle de sua manifestação que se possibilita o convívio social. Assim, pelo conceito de civilização estabelecer que nos desprendamos de uma ideia de natureza, a qual é repleta de agressividade e de impulsividade sexual, é que se surge o conflito entre o convívio público e felicidade pessoal. Trocamos a felicidade pela segurança, quando decidimos existir coletivamente, conforme o autor.

 

Em muitos aspectos o cinema representa em forma de imagem estes tipos de violência, bem como os vários outros fatores que permeiam as relações humanas. José Carlos Gomes da Silva (2012) reconhece na obra fílmica uma construção de violência que relaciona-se com fatores estéticos, sociais e psicológicos, e nos filmes de Stanley Kubrick, um limite entre especulação moral e estética.

 

Certa glamourizacão da violência, seu lado desejável e fashion são recorrentes no cinema contemporâneo. Alguns dos conceitos do cineasta Sergei Eisenstein (...) como a oposição entre o preto e branco, entre planos abertos e fechados, entre o alto e o baixo, entre direita e esquerda, entre volumes grandes e pequenos, entre a multidão e um indivíduo, entre ordem e desordem e entre sentimentos nobres e vis - empregados por ele em clássicos como Encouraçado Potemkin (1929), foram brilhantemente repetidos por Stanley Kubrick (SILVA, 2012, p.36-7).

 

Fica claro que existe um conceito de linguagem que corroborou na criação de uma relação de fetiche com espectador, que passa a enxergar estas representações de violência como algo instigante. Para este tipo de conexão, é necessário que o público possa imergir na experiência do filme, o que é desenvolvido por uma atmosfera repleta de minúcias, desde a construção do cenário, escolhas de enquadramento, paleta de cores, e trilha sonora. Essa composição colabora para um aumento da percepção, alterando nossos instintos básicos enquanto público, estimulando nossa capacidade sensorial.

 

Por outro lado, tem-se contato cotidianamente com a violência e a agressividade nas artes, na mídia, e nas relações sociais como um todo, e esta constância pode contribuir com uma banalização da violência, que antes chocante, agora se tornou por vezes corriqueira, incitando um sentimento de insegurança e angústia.

O livro Laranja Mecânica, escrito na década de 60, lançou um tipo de linguagem específico, o nadstat, para tornar crível a representação de que é uma obra futurística, e que o jovem narrador compõe seu vocabulário de diversas gírias e verbetes. Burgess fez uso de cerca de duzentos termos inventados, provindos de palavras eslavas, gírias ciganas, e termos modificados de sua própria língua nativa, o inglês, para contar esta história.

 

Uma língua que quem pertence àquele grupo social precisa conhecer, ou está fora. Da mesma forma, reparamos que o protagonista, apesar de toda sua crueldade explícita, é um adorador de música erudita. Além de uma violência direta, vista quando a gangue do protagonista estupra, espanca, rouba, destrói a propriedade alheia, também se insere em um universo a violência simbólica.

 

Em “A Dominação Masculina”, Pierre Bourdieu (2002, originalmente publicado em 1998) descreve que nossa sociedade impõe que as relações sejam permeadas por tipos diferentes de dominação. Cita a dominação masculina em relação a mulher, o que é visto na obra aqui trabalhada, já que em todos os casos de violência sexual se dá pelos personagens masculinos agredindo mulheres, bem como as relações de poder que são determinadas entre classes, e tipos de capital cultural. Para Bourdieu, classes sociais mais abastadas irão legitimar determinada característica de gosto como dominante, em relação aos gostos das classes populares.

A violência, tanto direta quanto simbólica, é recorrente em nosso cotidiano. Quando não a sentimos ou presenciamos, temos acesso a sua existência através da mídia, ou de expressões culturais/artísticas.

 

Burgess (2012) relata que, após assistir ao filme de Kubrick, viu na obra uma interpretação radical de seu livro. O autor escreveu o romance no ano em que descobriu ter um tumor no cérebro que o daria, no máximo, mais um ano de vida. Preocupado em deixar algum tipo de sustento a sua esposa, Burgess escreveu cinco livros em 14 meses, antes de descobrir que o diagnóstico havia sido um erro médico. Neste tumulto surge a obra aqui analisada, cuja proposta inicial gira em torno da questão da lavagem cerebral.

 

Laranja Mecânica trás o protagonista, Alex, um adolescente rebelde que habita um futuro não especificado, em suas peripécias criminosas com sua gangue, os druguis. Desta forma, entre outros pontos, a história trás questões sobre livre-arbítrio, criminalidade juvenil, e uma violência sempre permeada por uma sensação de gratuidade.

 

Quando Alex é preso, a fim de reduzir sua pena e o “curar” de sua maldade, é submetido ao processo Ludovico. Neste tratamento ainda em experimentação, obrigam-no a ver imagens para que passe a rejeitar os atos ilícitos que antes lhe davam um sentido de viver. Cenas que representam o que antes ele praticava ao som de suas músicas preferidas, num tratamento de lavagem cerebral. Assim que sai da prisão, sempre que pensa em praticar algum ato do que chama de “ultraviolência”, é impedido automaticamente por um mal estar. Ele não mais consegue escolher entre praticar algo errado ou certo, simplesmente lhe é rejeitado a possibilidade de fazer o mal. Porém, como o mundo permanece intolerante, apesar de ele não poder fazer o que antes lhe dava prazer, ele passa a viver uma série de situações das quais não pode sequer se defender – uma vez que a única forma de defesa seria a própria violência. Assim, depois de ser torturado e seu caso cair na mídia com maus olhos aos grupos políticos que praticaram seu tratamento, Alex é submetido a outros processos para recuperar seu antigo eu.

 

O nome do anti-herói de Burgess (2012) já o define, o termo em lati “lex” que significa lei, e o prefixo “a” que a nega, denota o rompimento do personagem com as normas da civilização. No livro, narrado em primeira pessoa em tom confessional, Alex expõe que assim como não há como explicar as motivações da bondade, no seu caso não há como justificar sua maldade. Seu comportamento agressivo é uma questão de gosto, ou seja, trata-se esta perversidade como uma característica consciente e inata. Em contrapartida, conforme associa o autor do romance: “o que minha parábola (e também a de Kubrick) tenta declarar, é que é preferível ter um mundo de violência assumida em plena consciência – violência escolhida como um ato de vontade – a um mundo a ser condicionado como um bom inofensivo” (BURGESS, 2012, p. 318). Burgess (2012) justifica a violência de sua história, bem como do filme de Kubrick, reafirmando a não-gratuidade das cenas, da necessidade das mesmas para construir uma análise a respeito das questões de condicionamento social.

Apesar da possível justificativa para as cenas explícitas de violência na adaptação cinematográfica, o filme foi amplamente censurado na época. No Brasil, em pleno período de ditadura militar, o longa foi liberado apenas sete anos depois de sua estreia mundial, com faixas pretas cobrindo as genitálias dos personagens em cenas de nudez. Na própria Inglaterra, país de origem do autor, Laranja Mecânica foi retirado de cartaz por pedido de Kubrick, em função das duras críticas divulgadas na época.

 

Estas cenas possivelmente não teriam o mesmo impacto atualmente, pois já são de caráter disseminado no cinema contemporâneo, capaz de representar com dureza e estetização cenas de profunda violência.

 

Um ponto interrante de ressaltar é que a versão cinematográfica consegue aprofundar a questão do sistema e sua ineficiência, que não dá conta de educar e suprir as necessidades da população, e permitir uma sociedade justa, igualitária e segura. O livro, apesar de também permear esse assunto, discute filosoficamente a questão do livre-arbítrio e do profundo condicionamento a que somos submetidos, o qual nos faz beirar o mecanicismo — explicando assim o próprio título.

 

A adaptação de Kubrick, bem como qualquer tipo de adaptação fílmica da literatura, tende a descartar detalhes em detrimento de outros, bem como fortalecer certos conceitos com a linguagem cinematográfica. Kubrick cria uma nova interpretação da história, alterando certos conceitos que tem os significados recriados. Tratando-se de sexualidade, certos detalhes irão alterar o sentido dado pela proposta do livro.

 

Malcolm McDowell tinha 28 anos quando gravou o filme, idade bem mais avançada em relação ao seu personagem Alex, de 14 anos. Apesar desta informação ser dada durante a cena em que Alex é preso, ela é facilmente ignorada pelo espectador que o assume como maior de idade pela sua aparência física desde o primeiro momento. Situação semelhante ocorre em outro momento, o personagem vai até uma loja de discos e encontra duas mulheres, eles flertam e na cena seguinte tem relações sexuais com Alex.

 

 

No filme, não temos indicativo da idade das mulheres, que aparecem apenas nestas duas cenas. No livro elas são descritas como meninas de cerca de 10 anos. As atrizes regulam de idade com McDowell, não causando contrates em relação as idades dos personagens. A cena do menáge é um plano sequência acelerado, ele dura mais ou menos um minuto, sendo que a cena original tinha cerca de 30 minutos.

 


Por outro lado, no livro este momento é claramente um estupro, onde o protagonista se droga e abusa sexualmente das personagens. No filme essa cena não contém explicitamente nenhum tipo de violência, podendo ser interpretado como o personagem satisfazendo sua libido sem danos a outros. Capacidade que Alex sequer parece ter no livro, pois todas as suas práticas sexuais ali são constituídas de violência.

 

Anterior a este acontecimento, temos Alex e sua gangue andando pela cidade e participando de diversas atrocidades, como luta contra um grupo rival, o espancamento de um morador de rua, e a invasão de uma casa onde moram um escritor e sua esposa. Este último ato é dado em uma cena violenta e explícita: vemos os jovens destruindo a casa, e Alex animado canta a música Singing in the Rain de Gene Kelly, dando um requinte de crueldade ao ato.

 

Porém, o momento que seria a consolidação do estupro não é visto pelo espectador, a cena é interrompida antes pelo corte. As agressões são chocantes, mas mesmo que vejamos a personagem nua, e saibamos o que está prestes a acontecer, o ato é implícito — somos poupados.

 

 

A última cena do filme é referente ao penúltimo capítulo do livro. Alex percebe que as ações outrora banidas de sua mente pela lavagem cerebral agora não o afetam mais. Ele conclui “eu estava realmente curado”. No filme a cena é de um ato sexual assistido, a mulher e Alex estão sorrindo. Uma sociedade trajada de maneira aristocrática aplaude o personagem, todos com figurinos que remetem ao século XIX.

 

 

As vestimentas sugerem um pensamento antiquado. Os sujeitos não consumam o ato, mas o aplaudem, fazendo com que possamos retomar o que é expresso por Freud: uma ideia de natureza humana que precisa lutar contra os instintos, mas que intimamente serão mantidos internos ao sujeito. Na texto original a ideia da sociedade que aplaude é mantida, porém é descrito como sexo feito à força.

 

(...) havia sonhos em que eu estava fazendo o bom e velho entra-sai-entra-sai com devotchkas, forçando-as no chão e fazendo elas tomarem dentro e todo mundo em pé ao redor aplaudindo com as rukas e gritando feito bizumnis. (BURGESS, 2012, p. 2004).

 

Em diversos momentos as escolhas da direção de arte ressaltam as questões ligadas à sexualidade, principalmente em relação ao cenário e aos objetos de cena. Mais de uma vez, vemos em ambientes públicos e privados imagens de membros genitais, mulheres nuas, e demais alusões.

 

 

Quase sempre estas obras são representações femininas, que aparecem de forma objetificadas a ponto de podermos compará-las a material pornográfico. Temos imagens deste tipo no Laktobar, lugar frequentado pela gangue onde tomam leite misturado com drogas sintéticas. No quarto de Alex, e no quarto de uma aristocrata que ele assassina.

 

Colocando obras de arte nos locais frequentados pela gangue semelhantes às presentes em lugares da aristocracia, faz com que possamos aproximar os dois universos. Alex não é assim tão diferente da senhora que ele vêm a assassinar. Por outro lado, diferente de seus amigos, ele escuta música clássica, o que nos remete a concepção de Bourdieu (2007) de que o gosto está intimamente atrelado a relação de poder construído por determinada classe. Alex se impõe como líder do grupo, e um dos momentos de conflito se dá exatamente por ele querer apreciar a uma música erudita que seus companheiros não valorizam. Ele chama os colegas de bárbaros, e se julga dominante em relação aos mesmo, também em função de seu gosto pessoal.

 

A versão cinematográfica de Laranja Mecânica termina no penúltimo capítulo da narrativa do livro. A história de Burgess termina com um Alex, agora com dezoito anos, andando pelos mesmos lugares, e aparentando pensar nas mesmas ações de ultraviolência que praticara durante sua juventude. Contudo, após encontrar com um dos membros de sua antiga gangue, agora casado, passa a refletir sobre o fim de sua adolescência, e o começo de sua fase adulta. Ficamos com a perspectiva de que agora um adulto, Alex se vê na necessidade de amadurecer, o que acredita implicar em deixar de lado as antigas atitudes ilícitas. Ficamos com a noção de que, podendo escolher entre a coisa certa e a errada, é possível que o personagem escolha a coisa certa, mesmo depois de muito ter errado.

 

Por outro lado, com o final do filme de Kubrick, o que podemos representar com a cena final é que enquanto não se impedir e punir categoricamente um criminoso, o que teremos é alguém que sempre irá optar pelos princípios antiéticos, pelo gozo pessoal em detrimento da esfera pública.

 

Desta forma, as representações diferentes nas duas obras conseguem passar ideias bastante diferentes, não tanto em função de uma adaptação de linguagem, mas das escolhas do próprio diretor. Reconhecemos que os verbetes nadsat ditas pelos personagens sempre criam um contexto durante o filme, o que não dificulta seu entendimento por parte do espectador. Por outro lado, a escolha de mudar a idade das personagens, e transformar momentos de abuso sexual em atos permissivos, apontam para outra direção interpretativa da obra de Burgess.

 

Retomando Freud (2011), a agressividade e a impulsividade sexual fazem parte de nossa natureza, porém é ao internalizá-la que podemos conviver em sociedade. Não podemos apenas excluir a violência como um todo, pensando em bani-la, pois os conflitos também são necessários dentro de nossas relações, ainda que possamos punir aqueles que utilizam estes atos em dano ao outro, ou de maneira coerciva.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro, 2ª Edição, Bertrand Brasil, 2002.

BURGESS, A. Geleia Mecânica. In.: Laranja Mecânica - Edição Especial de 50 Anos. BURGESS. São Paulo, Editora Aleph, 2012.

BURGESS, A. Laranja Mecânica. São Paulo, Editora Aleph, 2004.

[i] FREUD, S. O mal-estar na civilização. São Paulo, Penguin & Companhia das Letras, 2011.

MENEZES, Paulo. Laranja Mecânica: violência ou violação? In.: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 9(2): 53-77, outubro de 1997. PDF.

MINERBO, Marion. Reality game: violência contemporânea e desnaturação da linguagem. In.: Ide (São Paulo) v.30 n.44 São Paulo jun. 2007. PDF.

OLIVEIRA, Isabela Venturoza de. Imagem-Violência: A Comunicação da Violência pela Imagem Violenta. Ponto Urbe (Online), nº 16, 2015. Link.

SILVA, J. C. G. As representações da violência e suas relações com a religião, o feio, o medo e o grotesco – atração e repulsa nas telas de cinema. Universidade Federal de Pernambuco, Programa de pós-graduação em comunicação. Recife, 2012. PDF.

 

 

 

 

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