Kramer Vs. Kramer

October 16, 2018

Kramer vs. Kramer é um desses filmes que nos dão a sensação de olhar pelo buraco da fechadura.

 

 

 

É como se víssemos e sentíssemos empatia por uma história real, que poderia acontecer com nossos vizinhos, ou mesmo na nossa própria família. Um mérito para uma película de quase quatro décadas.

 

Esta é a segunda crítica que publicamos, de uma série, sobre a temática do divórcio no cinema. A primeira foi o conhecido bergmaniano  Cenas de um Casamento. A proposta é analisar filmes que trabalhem o tema da separação em diversos países e épocas diferentes, à fim de se notar suas singularidades e equivalências.

 

O longa de Robert Benton, conta a história do fim do casamento de Joanna e Ted Kramer, as consequências desta decisão, o impacto no filho pequeno do casal, e a briga judicial pela guarda. Em meio a essa premissa, e à toda a narrativa trágica na qual somos envoltos, a capa do filme com o retrato da família feliz vem carregada de ironia.

 

A academia de cinema americana demonstrou interesse pela temática das relações afetivas e os laços de família, premiando Kramer vs. Kramer na categoria Melhor Filme, e no ano seguinte concedendo a estatueta à Gente Como a Gente (1980). O filme de Benton ainda é lembrado por nos envolver pelos dramas psicológicos de seus personagens, convidando a observá-los de perto em toda sua humanidade.

 

Apesar disso, bem como o casamento dos personagens que chega ao fim após atravessar a década de 70, pode-se dizer que Kramer... também discute diversas problemáticas que revelam detalhes do contexto político e histórico da época em que se passa.

 

Meryl Streep, em um de seus primeiros trabalhos no cinema, interpreta de maneira comovente Joanna, mulher que deixou sua carreira de lado ao se casar, passando a dedicar-se às tarefas do lar, ao casamento, e à maternidade. Esta personagem, cujos olhos estão constantemente marejados, se encontra em crise psicológica, levando-a a sair de casa e abandonar a vida construída com Ted (Dustin Hoffmann) e seu filho Billy (Justin Henry). Apesar do mote inicial da trama vir de Joanna, partindo dela o desejo de se divorciar, é a jornada de Ted que acompanhamos a partir daí, focando principalmente na relação entre pai e filho que vai se construindo.

 

O colapso do estereótipo de família onde o homem é provedor da casa, e considera sua satisfação pessoal suficiente para suprir os anseios de sua companheira, diz muito da sociedade americana da época, que passava por uma ruptura incipiente desta estrutura em início dos anos 80. Kramer… também representa em alguma instância o pensamento obsoleto de que é impossível conciliar uma carreira profissional de sucesso e se dedicar a criação de um filho, como podemos notar pelo discurso do chefe de Ted ao insistir que a criança deveria ficar com outra pessoa da família para que ele não deixasse de lado a empresa.

 

Talvez tenha sido por representar tão bem esta nova perspectiva da sociedade americana que o filme foi o primeiro de um verdadeiro ciclo a respeito do divórcio e temáticas análogas em Hollywood, incluindo O Campeão (1979), A Chama que Não se Apaga (1982), A Difícil Arte de Amar (1986), Inimigos, uma História de Amor (1989), O Preço da Paixão (1988), A Guerra dos Roses (1989), dentre outros.

 

Em Kramer…, assim como o então comentado Cenas de um Casamento, o ambiente da cozinha se torna extremamente simbólico na trama. Na manhã seguinte à saída de Joanna de casa, temos a icônica cena onde Ted tenta preparar um café da manhã para ele e Billy. Ted não teria empecilhos em levar Billy para fazer uma refeição fora, por exemplo, contudo a insistência em cozinhar a solicitada rabanada (apesar de não parecer fazer ideia de como a preparar) além de render uma sequência divertida, nos dá uma primeira pista da intenção do pai em aproximar-se do filho.

 

 

 

Outros momentos do filme, que também envolvem as refeições, praticamente resumem a relação entre Billy e Ted. O então ator mirim Justin Henry e o já consagrado Dustin Hoffman tiveram grande liberdade criativa em diversas sequências, improvisando grande parte da ação. Funcionou para a trama, e rendeu indicação de Oscar para a atuação de ambos. Em um destes momentos, Billy quer sorvete antes do jantar, o que gera um conflito com seu pai. Aqui temos de um lado o esforço de Ted de assumir a autoridade de pai, e do outro o natural sentimento de abandono e saudade por parte de Billy. Conforme a relação melhora entre os personagens, vemos seu divertimento durante as refeições que outrora causavam tanto conflito, e ações que resumem a intimidade criada, como quando eles dividem a tela, o pai lendo jornal e o filho uma HQ.

 

 

 

 

Até mesmo a cena onde Ted está com a vizinha Margaret em seu apartamento, o espaço utilizado é a cozinha para demonstrar a intimidade e a amizade que se desenrolou entre os dois. Em contraste, dos diversos encontros com outros personagens onde fazem refeições, ou tomam bebidas, em lugares como o escritório ou restaurantes. Estas cenas são marcados quase sempre por impessoalidade, como quando o protagonista é demitido. Quando ele reencontra Joanna depois de meses sem contato, ainda fora de casa observamos ambos em um comportamento, polido e impessoal, até que finalmente se estabelece uma desavença, Joanna assume que quer a guarda do filho, e Ted se impõe de maneira agressiva, quebrando um copo e saindo do local.

 

 

Mesmo estando em boa situação financeira, a cozinha da casa dos Kramer não é grande. Seguindo um padrão de apartamentos que são construídos até hoje, este espaço é bastante limitado, e reflete diretamente o estilo de vida que passamos a viver atualmente, onde pouco se conversa em família, cada um tem uma função e um trabalho, e os momentos de dividir uma refeição facilmente se deslocam para a frente da televisão.

 

Apesar do filme tratar-se de um divórcio, bastante representativo pois se dá por motivações psicológicas e sociais de uma personagem feminina que não se sente realizada, a narrativa dá ares de uma possível reviravolta romântica na última sequência. Após conquistar judicialmente a guarda do filho, Joanna vai buscá-lo com Ted, para quem demonstra diversas inseguranças com a situação. Sente que abandonou Billy e que de certa forma não seria merecedora do amor e confiança do filho. Ambos chegam a alguns consensos e Ted concede à ela tempo com o menino, individualidade, e demonstra carinho e afeição pela ex-companheira. Fica implícito um enorme avanço da personalidade do homem em relação ao trato com a esposa no começo do filme.

 

Se faz notar, que mesmo tratando-se de uma narrativa focada em uma ruptura de relacionamento, assim como sugere a tradição do cinema americano, é dado ao público a possibilidade de conceber uma retomada. O divórcio, nos finalmentes, é praticamente lido como uma crise, mas com possibilidades de reconciliação, reafirmando um tradicionalismo em termos de valores familiares.

 

 

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