Cenas de um Casamento

August 28, 2018

Quantos filmes você já viu que terminavam com um belíssimo final, um casamento, uma praia, um beijo?

 

Os famosos finais felizes lidam com um atendimento da nossa expectativa - muitas vezes é justamente por isso que buscamos assistir a um filme, para preencher uma angústia, uma frustração, um sentimento de solidão quase que inerente ao que corresponde a ser humano. Para nos dar esperança de que tudo pode terminar bem, e nós, felizes para sempre com o amor de nossas vidas.

 

Mas e quando o filme trata de rupturas? Quando trata da não sintonia entre um casal? De traição e perda?

 

Aí temos outro fenômeno, nos identificamos com o sofrimento, sentimos empatia, e até mesmo podemos ver ali naqueles personagens ficcionais muito do que vemos em nós mesmos, observar de perto seu comportamento e seus defeitos, chegar a conclusões sobre nossas próprias características e falhas, nossas relações e nossos problemas sociais.

 

Não que essa identificação não exista nos filmes de finais felizes, mas acredito que tratar do sofrimento é lidar com uma realidade mais crua, menos fantasiosa que os belos filmes de herói.

 

Me desafiei há alguns meses a analisar filmes que envolvessem a temática do divórcio, buscando abranger obras que se passassem em países diversos, e tivessem sido produzidos em diferentes períodos.

Confesso que lidar com tamanha infelicidade em relacionamentos visto tão de perto, bem como o cinema nos permite, é uma experiência intensa. E o que seria um texto geral se tornou uma análise profunda de cada uma das obras escolhidas.

 

Até porque, diria, esses casais merecem nossa intimidade.

 

Nas próximas semanas exploraremos a temática do divórcio publicando análises sobre os filmes Kramer vs. Kramer (Robert Benton, 1979, EUA), A Igualdade é Branca (Krzysztof Kieślowski, 1994, França/Polônia/Suiça), O Passado (Hector Babenco, 2007, Argentina/Brasil), A Separação (Asghar Farhadi, 2012, Irã) e De Onde eu Te Vejo (Luiz Villaça, 2016, Brasil).

 

Hoje estrearemos nossa série com o sueco Cenas de um Casamento, que como é característico da obra do diretor sueco Ingmar Bergman, é uma narrativa de cunho existencialista, onde são retratadas as relações humanas dentro de todas as suas contradições e contrastes. Cenas foi criado como minissérie para TV em 1973, e no ano seguinte lançado em formato de longa-metragem.

 

A versão original, com cerca de cinco horas de duração, já possuía a intenção de alcançar o público de massa, obtendo êxito neste quesito, e talvez influenciando nas taxas de divórcio e de casais procurando acompanhamento clínico na Suécia — as quais dobraram após o lançamento da minissérie.

 

Independente destes índices, é fato que Cenas causa impacto em seus espectadores. Bergman passou a ser frequentemente abordado por pessoas com problemas em seus relacionamentos, que buscavam conselhos e precisavam desabafar. Fica evidente uma profunda empatia que nos gera ao assistir a história do casal Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullmann), casados há dez anos, vivenciando a ruína de sua relação após vir à tona um caso extraconjugal de Johan, experimentando a dor do rompimento e da mudança, bem como as novas oportunidades de encontrarem a si mesmos em novas relações.

 

Cenas de um Casamento fala, dentre outras coisas, do enorme abismo entre a imagem que temos diante do mundo, e a imagem que temos para nós mesmos. Remete a Sartre em sua máxima de que “o inferno são os outros”.

 

Na primeira cena vemos o então casal de protagonistas concedendo uma entrevista na qual falam sobre seu relacionamento, retratando sua relação consigo mesmos e com o outro de uma maneira harmoniosa, sem parecer irreal ou utópico, até consideram seus próprios defeitos e dificuldades, mas sempre soando felizes e satisfeitos ao extremo. Apesar disso, Marianne soa desconfortável em falar de si mesma, definindo a si mesma como “casada com Johan e mãe de duas filhas”, revela uma característica de ter uma imagem de si mesma muito dependente do parceiro, e até de saber pouco de si.

 

 

As impressões deste primeiro momento são reforçadas posteriormente, quando o casal se vê sozinho e onde a priori poderiam ser francos um com o outro. Depois de momentos acalorados de discussões, da própria separação, diversos reencontros que os dois tem durante dez anos levam a uma reaproximação e uma espécie de nova estrutura do relacionamento, que soa mais genuíno - talvez por deixar de existir a preocupação com a imagem que pudessem passar aos outros, uma vez que não são mais tidos como um casal. É irônico, e verossímil, que depois de anos de rompimento, eles parecem não se importar em expor seus defeitos e mesquinhez um ao outro.

 

Tanto Johan quanto Marianne possuem arcos próprios dentro da narrativa, e a mudança da mulher que sai de uma postura passiva por muito tempo, para momentos que beiram a histeria é de alguma maneira redentor para a personagem.

 

Na cena em que Johan confessa um caso e avisa que vai deixá-la, Marianne ainda se prontifica a querer ajudá-lo com a mala, e o trata em tantos outros momentos como um filho. Demonstra preocupação e responsabilidade. Johan, por sua vez, age como uma criança mimada, capaz de ferir com palavras e ações caso sua vontade não seja feita.

 

 

A obra pode ser analisada dentro de um prisma bastante freudiano, quando se pensa a respeito dos problemas apresentados pelo casal, tanto em termos de sexualidade, quanto da interferência de seus familiares na relação. A família raramente aparece, contudo sua presença paira em torno do casal em praticamente todos os momentos, e mesmo diante da iminente separação, a preocupação com a reação dos pais é manifestada.

 

Quanto à sexualidade, Johann a coloca como um dos motivos prioritários para o pedido de divórcio, se queixa a respeito da frigidez de Marianne, mas jamais se supõe como a motivação deste desinteresse. Após o divórcio, Marianne parece descobrir sua sexualidade, mas não a ponto de baixar a guarda de sua própria moralidade.

 

Cenas de um Casamento representa um tipo de relacionamento ocidental, que não consegue questionar seus princípios burgueses e possui dificuldades de trabalhar questões afetivas. Apesar de ser uma obra dos anos 70, é bastante atemporal, tendo em vista a persistência dos papéis ali representados, das convenções sociais, da repressão em torno dos sentimentos que ainda vivemos.

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

faça uma social

  • Black Facebook Icon
  • Black Pinterest Icon
  • Black Twitter Icon
  • Black Instagram Icon

Copyright © 2018 Cinema de Porão - Criado por Kelly Demo Christ

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now