23 docs por MULHERES sobre MULHERES

August 28, 2018

 

 

 

Conheço pessoas que dificilmente se comovem com a ficção. É como se, ao acreditar que algo não é verdade,  ou não faz parte do cinematográfico “baseado em fatos reais”,  tornasse o assunto retratado menos digno de ser discutido, questionado, problematizado.

 

A relação muda no filme que se enquadra como documentário. Possivelmente, porque se faz a assimilação de que o que está sendo retratado, de fato, existe. Nesse sentido, muitas vezes o documentário é segregado do que seria considerado cinema, e integrado ao jornalismo, ou uma mídia tradicionalmente atribuída ao dever de noticiar.

 

Acarreta num público que, por vezes, está buscando a informação, mais do que a emoção ou a reflexão. Espectadores que não pretendem se envolver com uma narrativa, e sim apenas saber o que realmente aconteceu.

 

Quando o documentário é tido como feminista o problema de público se agrava, pois o feminismo só existe enquanto movimento em função dos diversos conflitos que a mulher tem dentro da sociedade, tornando estas obras audiovisuais densas e de difícil procura.

 

Se o cinema é utilizado como entretenimento, o cinema-documentário-feminista é como uma bomba, porque é forte, pesado, problematizador, e necessita ganhar mais espaço e visibilidade, assim como o feminismo em si. Por cinema feminista, estamos nos referindo ao cinema feito por mulheres, e que tratam de assuntos relacionados às mulheres, sejam em políticos, sociológicos, filosóficos.

 

Alguns leitores podem se questionar porque desta questão de serem dirigidos por mulheres, e ainda querer argumentar que, sendo o filme relevante para a discussão feminista, pouco vêm ao caso se foi dirigido por um homem ou uma mulher. Garanto que não é simples assim.

 

Primeiramente temos poucas diretoras mulheres reconhecidas, não só no cinema brasileiro, como no cinema mundial. Dos filmes lançados no Brasil entre 1995 e 2015, apenas 16,5% foram dirigidos exclusivamente por mulheres. No Informe Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016, a ANCINE (Agência Nacional do Cinema) complementa e atualiza estes dados, observando também a disparidade racial: 

 

"As mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. (...) [A análise] evidencia que as histórias exibidas nas telas do país, produzidas por brasileiros, têm sido contadas majoritariamente do ponto de vista dos homens: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de ficção, 63,6% dos documentários, e 100% das animações brasileiras de 2016. Os homens dominam também as funções de direção de fotografia (85%) e direção de arte (59%)." (ANCINE, 2018)

 

 

O documentário surge como uma categoria excepcional: 29,5% das produções de docs brasileiros são de direção feminina, número relevante comparado a ficção, com apenas 15,5% do total de filmes.

 

Dados como estes não se limitam ao Brasil. A Universidade do Sul da Califórnia (EUA), analisou 1100 filmes populares produzidos entre 2007 e 2016, revelando que apenas 4% dos diretores envolvidos nestas produções são mulheres (FOLHA DE SÃO PAULO, 2018).

 

Precisamos levar em consideração que no cinema, de forma geral, a direção é um cargo determinante. No documentário essa relação se dá de outra forma, intensamente ligada ao conteúdo que a obra terá, seu recorte, e as informações que irá conter ou não. Muitas vezes o diretor perde o controle do que está sendo capturado durante a gravação, ou se utiliza de imagens de arquivo, sob a qual não influenciou na captação, apenas dá novo significado ao escolher para a montagem.

 

Repare que tanto escolher o que permanecerá no documentário, como o que este não conterá, são decisões difíceis. Por isso, reafirmo os filmes desta lista como obras feministas, por discutir questões relacionadas as mulheres, dentro da concepção também das mulheres. O que não torna estes documentários infalíveis e “incriticáveis”. Nesta lista você vai encontrar curtas, médias e longa-metragens, o que facilita para quem tem vontade de assistir, porém pouco tempo disponível.

 

1. Filha da Índia (Leslee Udwin, 2015, Reino Unido e Irlanda do Norte)

A história do brutal estupro coletivo e assassinato da estudante de medicina de 23 anos Jyoti Singh num ônibus em movimento em 2012; e dos protestos e motins sem precedentes que este evento terrível gerou por toda a Índia, conduzindo uma forte demanda por mudanças na forma que as mulheres do país são tratadas. O filme examina os valores e a mentalidade dos estupradores e também entrevista os advogados que defendem os homens condenados pelo estupro e assassinato de Jyoti.

O filme foi banido na Índia por seu conteúdo controverso.

 

Trailer

 

 

2. What happened, Miss Simone? (Liz Garbus, 2015, EUA)

A vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003). Usando gravações inéditas, imagens raras, diários, cartas e entrevistas com pessoas próximas a ela, o documentário faz um retrato de uma das artistas mais incompreendidas de todos os tempos.

 

Trailer

 

 

3. Brave Miss World  (Cecilia Peck, 2013, EUA e Israel)

O filme conta a história real da ganhadora do concurso Miss Israel, Linor Abargil. Seis semanas antes de se apresentar na competição, aos 18 anos de idade, ela foi esfaqueada e estuprada em Milão. Mesmo assim, ela participou e ganhou a coroa. Depois disso, ela prometeu ajudar as vítimas de todo mundo a lutar contra esse abuso. Linor viaja o mundo dando palestras, conversando com pessoas e dividindo suas experiências. O documentário acompanha sua trajetória do momento em que foi violentada até seu momento atual.

 

Trailer (legenda em inglês)

 

 

4. Elena (Petra Costa, 2013, Brasil)

Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar. Deixa Petra, a

irmã de sete anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas. Filmes caseiros, recortes de jornal, um diário. Cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos. E acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem, já não se sabe quem é uma, quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

 

Trailer

 

 

5. Reze para o Diabo Voltar para o Inferno (Gini Reticker, 2008, EUA)

O documentário acompanha a trajetória de corajosas mulheres que lutam pela paz na Libéria, nação africana que sofre por anos de guerra civil. Combinando entrevistas e imagens de arquivos, o longa conta as memórias dessas mulheres.

 

Trailer (sem legendas)

 

 

6. Caminhando para a Vida (Mary Olive Smith, 2007, EUA)

"Caminhando para a Vida" conta a história de cinco etíopes que sofrem complicações obstétricas ao darem a luz. Rejeitadas pelos maridos e ostracizadas pela comunidade,  o documentário segue estas mulheres em uma jornadas à um hospital onde buscam o reparo de suas lesões físicas. A experiência que elas suportam, bem como suas tentativas de reconstrução de vida, compõe uma história universal de esperança, coragem e transformação.

 

Trailer (legenda em inglês)

 

 

8. Beyond Belief (Beth Murphy, 2007, EUA)

Susan Retik e Patti Quigley são duas mães dos subúrbios de Boston que perderam seus maridos no 11 de Setembro. Ao longo de dois anos essas mulheres extraordinárias dedicam-se a ajudar viúvas no Afeganistão, cujas vidas foram devastadas por décadas de guerra, pobreza e opressão - fatores que consideram ser a raiz do terrorismo. Ao fazer esta viagem, saindo de seus confortáveis lares para as retiradas aldeias afegãs, elas uma maneira profunda para ir além tragédia.

 

Trailer

 

 

9. Revolução da Arte Feminina (Lynn Hershman Leeson, 2010, Canadá)

A artista americana Lynn Hershman Leeson trabalha com arte midiática desde a década de 1970. Para este filme, usou centenas de horas de entrevistas com colegas, amigos, historiadores de arte, curadores e críticos e produziu um documentário singular sobre a história do Movimento de Arte Feminista. São 42 anos de materiais cinematográficos exclusivos que estiveram à disposição da diretora, fornecendo uma fascinante perspectiva da diversidade e do poder da arte feminista. O resultado é uma obra na qual Leeson consegue manter uma abordagem subjetiva sem comprometer a complexidade e as contradições que caracterizam o movimento e suas protagonistas. A garra e a coragem das artistas e das obras apresentadas reforçam a ideia com a qual diversos historiadores da arte concordariam, ou seja, o Movimento de Arte Feminista representa um dos movimentos artísticos mais fundamentais do século 20.

 

Trailer (inglês sem legendas)

 

 

10. Hot Girls Wanted (Jill Bauer e Ronna Gradus, 2015)

Este documentário põe sob os holofotes a próspera indústria do pornô “amador” e os efeitos da sedução e da exploração nas vidas das jovens atrizes.

 

Trailer (inglês sem legendas)

 

 

 

11. 69 – Praça da Luz (Carolina Markowicz e Joana Galvão, 2007, Brasil)

Um documentário que aborda a história de prostitutas de idade avançada que ganham a vida na Praça da Luz, em São Paulo. Relatos divertidos e inusitados, além de depoimentos dramáticos de cinco mulheres que revelam em detalhes suas experiências em todos esses anos de profissão.

 

Curta-metragem

 

 

12. Resposta de Mulheres: Nosso Corpo, Nosso Sexo (Agnès Varda, 1975, França)

O que ser uma mulher realmente significa? Um grupo variado de mulheres responde diante das câmeras de Agnès Varda.

 

Curta-metragem

 

 

 

13. Olympias (Bia Medeiros, 2013, Brasil)

As Olympias de Fernando Codeço são as travestis da Avenida Augusto Severo no bairro da Glória, Rio de Janeiro. O projeto é feito em referência à obra Olympia (1863), de Édouard Manet, que retrata uma prostituta. O artista as desenha em técnicas variadas e realiza performances nas ruas do bairro. O trabalho de Fernando é artístico e também antropológico. Ao entrar nesse universo, ele capta depoimentos, histórias de vida e a relação das travestis com a prostituição, corpo e autoimagem.

 

Curta-metragem

 

 

14. Mulheres que Representam (Ana Frank, 2013, Brasil)

Documentário sobre a lei Maria da Penha com caso real e a informação sobre a representação em um BO.

 

Curta-metragem

 

 

15.  Marias (Joana Mariani, Leticia Giffoni, 2015, Brasil)

O documentário aborda as diferentes devoções e representações religiosas das Marias através das festas padroeiras por toda a América Latina. Além disso, apresenta uma jornada pelo feminino, buscando todas as particularidades de cada culto que, mesmo destinados à mesma divindade, são bem distintos.

 

Trailer

 

 

16. Mulheres de 50 (Patrícia Antunes, 2010, Brasil)

Benditas coisas que não sei. Os gostos que não provei. O tempo escorre num piscar de olhos. Posso brincar de eternidade agora. Sem culpa nenhuma." Mulheres de 50, verdes e tão maduras. Mulheres que entre tantas "marias", abriram suas histórias, suas vidas, fantasias, anseios, desejos e frustrações para compor um filme que retrata acúmulos e transformações reais de meio século da ascensão feminina.

 

Curta-metragem

 

 

17. O Aborto dos Outros (Carla Gallo, 2008)

O Aborto dos Outros é um filme sobre a maternidade no seu ponto limite. A narrativa percorre situações de aborto dentro de hospitais públicos que atendem mulheres vítimas de estupros, interrupções de gestações em casos de má-formação fetal sem possibilidade de sobrevida depois do nascimento e abortos clandestinos. O documentário mostra os efeitos perversos da criminalização para as mulheres e aponta a necessidade de revisão da lei brasileira.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

18. Visita Íntima (Joana Nin, 2005, Brasil)

O que faz uma mulher livre escolher um presidiário para desenvolver um relacionamento amoroso? Visita Íntima é um filme sobre amor nesta condição especial. Entre as personagens, algumas conheceram o companheiro na penitenciária, outras visitam o marido há décadas. Elas sentem-se valorizadas por eles e dizem-se bem amadas. São mulheres que insistem num relacionamento cheio de constrangimentos e privações, mesmo sofrendo no dia a dia várias conseqüências desta opção. Neste filme o universo carcerário está presente quase que exclusivamente no relato das mulheres, e nunca sob o ponto de vista dos maridos.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

19. Eu, trilho (Patricia Francisco, 2008, Brasil)

Minhas memórias sobre a vida profissional e amorosa de minha avó, criando, através das três personagens encontradas em estações de trem e de conversas com minha mãe, relações com as experiências vivenciadas pela minha avó Ana.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

20. Babás (Consuelo Lins, 2010, Brasil)

Babás mistura elementos autobiográficos com uma extensa reflexão sobre o papel e a presença das babás no cotidiano de diversas famílias. Tudo que pudesse construir uma narrativa pessoal sobre o tema foi usado: fotografias, filmes de família e até anúncios de jornal. O curta propõe uma discussão entre o afeto genuíno até aspectos do passado escravocrata brasileiro.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

21. Nosso corpo nos pertence? (SOF, 2014, Brasil)

O vídeo produzido pela SOF-Sempreviva Organização Feminista apresenta reflexões feministas sobre a mercantilização do corpo e da vida das mulheres, sobre a construção social da sexualidade e a prostituição. O vídeo foi produzido com apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

22. Luna e Cinara (Clara Linhart, 2012, Brasil)

Documentário que tenta demonstrar um pouco da relação entre uma idosa e sua empregada doméstica em um dia de ida ao cinema.

 

Curta-metragem na íntegra

 

 

23. Cativas: Presas Pelo Coração (Joana Nin, 2013, Brasil)

A história de sete mulheres livres que se mantêm cativas em nome do amor. Apaixonadas por presidiários, elas vivem as limitações do relacionamento e a esperança de um dia constituir uma família do lado de fora. O filme aborda esse universo através de relatos emocionados, cartas carinhosamente decoradas e um acesso privilegiado à intimidade dos casais.

 

Trailer

 

 

* Peguei as sinopses no filmow.com.

 

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